A História da I.A.

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Introdução

TL;DR: A I.A. não nasceu com o ChatGPT. Ela nasceu há mais de 80 anos, foi bancada por governos e quase morreu duas vezes quando esses mesmos governos fecharam a torneira. Hoje o jogo virou e ela entrega resultado, virando ativo estratégico de Estado. Os modelos vão continuar crescendo, só não vai ser para você.

Há alguns dias li algumas publicações do Fabio Akita sobre I.A.1, principalmente após todo o burburinho causado por Dario Amodei2 e cia., pedindo que os laboratórios de fronteira desacelerem a evolução dos modelos3.

É comum ver o Akita defendendo que boa parte do “salto” recente da I.A. vem de força bruta: queimar quantidades absurdas de computação, algo que só meia dúzia de empresas no mundo consegue bancar, e mesmo assim em hardware majoritariamente alugado1.

A literatura acadêmica vai na mesma direção. A computação usada para treinar modelos de ponta vem dobrando a cada ~6 meses4, e há pesquisadores argumentando que essa trajetória é econômica e tecnicamente insustentável5.

Concordo quando o Akita diz que o maior limitador da I.A. é o hardware, mas vou um pouco mais além.

Mesmo que tenhamos o hardware suficiente para as I.A.s triplicarem de tamanho nas próximas décadas, nós, cidadãos comuns, não vamos ter acesso a isso, porque governo nenhum vai deixar.

E não, não estou falando de governo frear a I.A. por medo do Exterminador do Futuro. Estou falando de dois movimentos que já estão acontecendo ao mesmo tempo:

  1. Para fora, a I.A. virou ativo de soberania: o governo americano trata a disputa pela I.A. literalmente como uma nova corrida espacial6 e controla a exportação de chips avançados desde 20227. Em junho deste ano, a Anthropic precisou suspender o acesso a dois dos seus modelos para cumprir controles de exportação do Departamento de Comércio dos EUA8. Quem trata uma tecnologia assim não quer pará-la, quer ser o dono dela;
  2. Para dentro, a I.A. virou problema de identidade digital: União Europeia e Brasil estão empilhando regras sobre regras para rotulagem de conteúdo sintético, deepfakes, verificação de identidade e responsabilidade de plataformas9 10 11. Cada nova regra vem justificada por “segurança” e “privacidade”, e cada uma estreita um pouco mais o que o usuário final pode fazer;

Na minha opinião, o resultado desses dois movimentos é previsível. Os modelos de fronteira vão continuar crescendo, só que dentro de datacenters sob custódia estatal, direta ou regulatória. Para o público, sobra a versão diluída, um chatbot para tirar dúvidas e reestruturar textos, com saída marcada e identificável como gerada por I.A., algo que a UE já exige desde agosto de 20269.

Já modelos com capacidades de gerar conteúdo audiovisual tendem a seguir o caminho de softwares profissionais como o Visual Studio ou o AutoCAD, com uma camada a mais: uso restrito a empresas, mediante licenciamento, e fiscalização do uso final nos moldes do que a ANPD faz com a LGPD.

Isso é uma aposta, não uma profecia. Mas, antes de discutir para onde a I.A. vai, vale entender de onde ela veio. E a primeira surpresa para muita gente é que a ideia de “máquinas que pensam” é mais antiga que o próprio computador, a eletricidade e, em certo sentido, que a própria ciência. A segunda surpresa é que governos sempre estiveram no meio dessa história, às vezes como financiadores e às vezes como freio.

Antes do silício: mitos, autômatos e robôs

A vontade de criar seres artificiais aparece já na mitologia grega. Na Ilíada, Hefesto, o deus ferreiro, é servido por assistentes feitas de ouro que se movem, falam e têm entendimento12. Na Argonáutica, de Apolônio de Rodes, aparece Talos, um gigante de bronze que patrulha a ilha de Creta e é derrotado pela feiticeira Medeia13. A historiadora Adrienne Mayor, de Stanford, dedicou um livro inteiro a mostrar que os gregos já imaginavam “seres feitos, não nascidos”, com mecanismos internos e objetivos programados, séculos antes de existir tecnologia para isso14.

A imaginação virou engenharia na Idade Média islâmica. Por volta de 1206, o engenheiro Ismail al-Jazari documentou dezenas de mecanismos automáticos no seu Livro do Conhecimento de Dispositivos Mecânicos Engenhosos. Entre eles havia autômatos musicais e servidores mecânicos controlados por água e cames15. Não havia “inteligência” ali, mas havia a ideia central da automação: comportamento complexo emergindo de regras mecânicas.

A palavra “robô” é bem mais recente, ela vem da peça R.U.R. (1920), do tcheco Karel Čapek, derivada de robota, associado a trabalho forçado16. E o enredo já trazia o tema que domina as manchetes de 2026: as criaturas artificiais se rebelam contra os criadores.

A ideia que tornou I.A. possível: pensar é calcular

O mito explica o desejo. O que tornou a I.A. concebível foi uma ideia filosófica: raciocinar seria uma forma de computação.

  • Ramon Llull (c. 1305), na Ars Magna, propôs discos giratórios que combinavam conceitos para gerar proposições de forma sistemática. Foi uma tentativa de mecanizar parte do raciocínio17;
  • Thomas Hobbes (1651), no capítulo 5 do Leviatã, escreveu que a razão “is nothing but Reckoning (that is, Adding and Subtracting)”18;
  • Gottfried Leibniz (final do séc. XVII) sonhou com uma characteristica universalis, uma linguagem simbólica universal, e um calculus ratiocinator capaz de resolver disputas por cálculo. É o famoso “Calculemus!”. O matemático Martin Davis usa Leibniz como ponto de partida de uma linha direta até Turing19;

O programa de Leibniz só ganhou ferramentas no século XIX e início do XX:

  • George Boole (1854) algebrizou a lógica em The Laws of Thought. É daí que vem a “álgebra booleana” que todo programador usa20;
  • Gottlob Frege (1879) criou, no Begriffsschrift, a primeira lógica formal de predicados moderna21;
  • David Hilbert e Wilhelm Ackermann (1928) formalizaram o Entscheidungsproblem. A pergunta era se existiria um procedimento mecânico capaz de decidir se qualquer afirmação lógica é válida22;
  • Kurt Gödel (1931) mostrou, com os teoremas da incompletude, que todo sistema formal consistente e expressivo o suficiente para a aritmética contém verdades que não consegue provar23. Foi o primeiro grande “limite” teórico, e ele voltaria décadas depois nos debates sobre se máquinas podem pensar;

Babbage, Lovelace e a primeira objeção à I.A.

Charles Babbage projetou, a partir da década de 1830, a Máquina Analítica. Era um computador mecânico de propósito geral, com memória ("store"), unidade de processamento ("mill") e entrada por cartões perfurados, nunca concluído em vida. Em 1843, Ada Lovelace traduziu um artigo do engenheiro italiano Luigi Menabrea sobre a máquina e acrescentou notas mais longas que o texto original24.

Duas contribuições dessas notas importam para a nossa história:

  1. Generalidade: Lovelace percebeu que a máquina manipula símbolos, não apenas números. Por isso poderia, em tese, compor música se as regras da harmonia fossem codificadas (Nota A)24. É a intuição de computação simbólica cem anos antes dela sequer existir;
  2. Ceticismo: Na Nota G, junto do algoritmo para calcular números de Bernoulli, frequentemente chamado de primeiro programa publicado, ela afirma que a máquina “has no pretensions whatever to originate any thing. It can do whatever we know how to order it to perform”24.

Essa frase voltaria mais de um século depois: Turing a batizaria de “Objeção de Lady Lovelace” e dedicaria uma seção inteira a respondê-la25.

Computabilidade: a teoria antes da máquina

Em 1936, dois trabalhos independentes responderam ao desafio de Hilbert, e a resposta foi negativa:

  • Alonzo Church usou o cálculo lambda para mostrar que não existe um procedimento geral de decisão26;
  • Alan Turing, em On Computable Numbers, definiu uma máquina abstrata que lê e escreve símbolos numa fita e provou o mesmo resultado27. O subproduto foi mais importante que o teorema: a máquina universal, uma única máquina capaz de simular qualquer outra a partir de uma descrição codificada. É a ideia de software, formalizada.

A ponte entre lógica e eletrônica veio logo depois. Em 1938, Claude Shannon mostrou na sua dissertação de mestrado que a álgebra de Boole descreve circuitos de relés. Com isso, qualquer operação lógica poderia ser implementada fisicamente28. Em 1945, o First Draft of a Report on the EDVAC, de John von Neumann, descreveu a arquitetura de programa armazenado que usamos até hoje29.

Em menos de dez anos, “pensar é calcular” deixou de ser filosofia. Havia uma teoria do que é computável e havia máquinas capazes de computar.

Os dois caminhos: neurônios artificiais e cibernética

Enquanto a lógica simbólica avançava, outro grupo buscava inspiração no cérebro.

Em 1943, o neurofisiologista Warren McCulloch e o lógico Walter Pitts publicaram A Logical Calculus of the Ideas Immanent in Nervous Activity. O artigo modelava neurônios como unidades binárias com limiar e mostrava que redes desses “neurônios” podem computar funções lógicas30. É o ancestral direto de toda rede neural moderna.

No mesmo ano, Rosenblueth, Wiener e Bigelow propuseram que comportamento com propósito pode ser explicado por realimentação (feedback)31. Em 1948, Norbert Wiener batizou o campo de Cibernética: o estudo do controle e da comunicação no animal e na máquina32. Em 1949, o psicólogo Donald Hebb propôs que conexões entre neurônios se fortalecem quando eles disparam juntos. Essa “regra de Hebb” é a primeira teoria plausível de aprendizado em redes33.

Shannon, por sua vez, publicou em 1950 Programming a Computer for Playing Chess. O artigo define a busca em árvore com função de avaliação, que seria a base de programas de xadrez por quase meio século34.

Aqui nasce a divisão que atravessa toda a história da I.A.:

AbordagemPremissaHerdeiros
SimbólicaInteligência = manipulação de símbolos com regras explícitasLógica, sistemas especialistas, LISP
ConexionistaInteligência = emergente de muitas unidades simples que aprendemPerceptron, redes neurais, deep learning, LLMs

1950: “Can machines think?”

O artigo Computing Machinery and Intelligence, publicado por Turing na revista Mind em 1950, é o texto fundador do debate moderno25. Turing considerava a pergunta “máquinas podem pensar?” mal definida e a substituiu por um experimento: o Jogo da Imitação, hoje chamado de Teste de Turing. Um interrogador conversa por texto com um humano e uma máquina. Se não conseguir distinguir os dois de forma confiável, não haveria base prática para negar inteligência à máquina.

O artigo é mais do que o teste. Nele, Turing fez uma previsão concreta: em cerca de 50 anos, máquinas com ~$10^9$ bits de armazenamento jogariam o jogo tão bem que um interrogador médio não teria mais de 70% de chance de acertar após cinco minutos25. Respondeu a objeções, incluindo a teológica, a matemática (baseada em Gödel) e a de Lady Lovelace25. E propôs máquinas que aprendem: em vez de programar um adulto, sugeriu simular uma “mente de criança” e educá-la25, ideia que já aparecia no relatório Intelligent Machinery (1948), onde ele descreve “máquinas desorganizadas” e redes que poderiam ser treinadas35.

Ou seja, em 1950 já estavam na mesa os ingredientes centrais: critério comportamental de inteligência, previsão de escala de memória e aprendizado em vez de programação explícita.

1956: Dartmouth e o nascimento do nome

O termo “inteligência artificial” aparece na proposta de 31 de agosto de 1955 assinada por John McCarthy (Dartmouth), Marvin Minsky (Harvard), Nathaniel Rochester (IBM) e Claude Shannon (Bell Labs). Eles pediam financiamento à Fundação Rockefeller para um workshop de verão em 195636.

A proposta partia de uma conjectura ousada: todo aspecto do aprendizado ou de qualquer outra característica da inteligência poderia, em princípio, ser descrito com precisão suficiente para uma máquina simulá-lo36. Entre os temas listados estavam o uso de linguagem por computadores, redes neurais, abstração, autoaperfeiçoamento e aleatoriedade/criatividade36.

O nome foi uma escolha deliberada. McCarthy relatou em entrevistas e textos posteriores que escolheu “artificial intelligence” em parte para se distanciar da Cibernética e da figura de Wiener. A versão aparece em relatos históricos37.

O resultado concreto mais marcante do workshop foi o Logic Theorist, de Allen Newell, Cliff Shaw e Herbert Simon. O programa provava teoremas do Principia Mathematica de Russell e Whitehead usando busca heurística38. É amplamente citado que ele provou 38 dos 52 primeiros teoremas do capítulo 2 do Principia, e que uma das provas era mais elegante que a original39.

Por convenção, Dartmouth 1956 é tratado como o “nascimento” da I.A. como disciplina acadêmica3739.

Os anos dourados (1956~1973)

Os primeiros anos produziram resultados que pareciam mágicos para a época:

  • Arthur Samuel (IBM, 1959) publicou um programa de damas que melhorava jogando contra si mesmo. O título do artigo popularizou o termo machine learning40;
  • Frank Rosenblatt (1958) apresentou o Perceptron, um modelo de neurônio com pesos ajustáveis que aprendia a classificar padrões41. O projeto recebeu financiamento da Marinha americana (Office of Naval Research) e virou hardware: o Mark I Perceptron. A cobertura do New York Times de 8 e 13 de julho de 1958 sugeria que a Marinha esperava uma máquina capaz de perceber, reconhecer e identificar os seus arredores sem treinamento ou controle humano42.
  • John McCarthy (1958~1960) criou o LISP, que se tornaria a língua franca da I.A. por décadas e introduziu ideias como coleta de lixo (garbage collector) e código como dado43;
  • Newell, Shaw e Simon (1959) desenvolveram o General Problem Solver (GPS), que separava o conhecimento do problema da estratégia de busca44;
  • Joseph Weizenbaum (MIT, 1966) criou o ELIZA, um programa de conversação baseado em casamento de padrões45. Weizenbaum ficou alarmado com a facilidade com que as pessoas atribuíam compreensão e empatia ao programa, e passou a criticar o campo46. É o primeiro caso documentado do que hoje chamamos de “efeito ELIZA”, e ele é diretamente relevante para a era dos chatbots;

O otimismo era proporcional. Em 1958, Simon e Newell previam que, em dez anos, um computador seria campeão mundial de xadrez e descobriria e provaria um teorema matemático importante47. Em 1961, Minsky publicou Steps Toward Artificial Intelligence, um mapa do campo com busca, reconhecimento de padrões, aprendizado, planejamento e indução48.

Quase nenhuma dessas previsões saiu no prazo. O xadrez levou 39 anos em vez de 10.

O primeiro inverno: quando os governos puxaram o freio

Aqui a história conversa diretamente com a tese da introdução. A I.A. dos anos 1950~1970 era financiada majoritariamente por governos, sobretudo pelas agências militares americanas e britânicas. Quando as promessas não se cumpriram, esses mesmos governos cortaram o dinheiro.

Tradução automática: o relatório ALPAC (EUA, 1966). Em 1954, o experimento Georgetown-IBM demonstrou a tradução automática de frases do russo para o inglês e gerou expectativas enormes em plena Guerra Fria49. Após anos de investimento, o comitê ALPAC da Academia Nacional de Ciências concluiu que a tradução automática era mais lenta, menos precisa e mais cara que a humana, e recomendou redirecionar recursos para pesquisa básica em linguística computacional50. O financiamento federal para a área despencou.

Perceptrons (1969). Minsky e Papert publicaram Perceptrons, uma análise matemática que demonstrava limitações do perceptron de camada única. Ele não consegue, por exemplo, representar funções como XOR ou decidir conectividade51. A narrativa popular diz que o livro “matou” as redes neurais por uma década. O sociólogo Mikel Olazaran mostrou que a história é mais complexa, com disputas por financiamento e legitimidade entre as abordagens simbólica e conexionista52.

O Relatório Lighthill (Reino Unido, 1973). O governo britânico encomendou ao matemático Sir James Lighthill uma avaliação do campo. A conclusão foi dura: fora de nichos, a I.A. não havia cumprido suas promessas. O principal obstáculo era a explosão combinatória, porque técnicas que funcionam em “mundos de brinquedo” não escalam para problemas reais53. O relatório é frequentemente associado ao corte de financiamento de I.A. no Reino Unido, com poucos centros sobrevivendo (como Edimburgo).

A Emenda Mansfield (EUA, 1969). A Seção 203 da Lei de Autorização Militar para o ano fiscal de 1970 (Public Law 91-121) passou a exigir que pesquisa financiada pelo Departamento de Defesa tivesse relevância militar direta54. Relatos históricos associam essa mudança, somada à frustração com projetos como o de reconhecimento de fala, à redução de verbas “de exploração” da DARPA para I.A. no início dos anos 7037 55.

Críticas filosóficas. Hubert Dreyfus, contratado pela RAND Corporation, publicou em 1965 Alchemy and Artificial Intelligence. O texto argumentava que a I.A. simbólica ignorava o papel do conhecimento tácito e do corpo na inteligência humana56. O livro What Computers Can’t Do (1972) expandiu a crítica57.

Governos não frearam a I.A. porque ela era poderosa demais; frearam porque ela prometeu demais e entregou de menos.

Sistemas especialistas, corrida estatal e o segundo inverno (1980~1993)

A I.A. voltou nos anos 80 com uma proposta mais modesta e comercial: sistemas especialistas, programas que codificam conhecimento de especialistas humanos em regras “se-então”.

  • DENDRAL (Stanford, a partir de 1965) inferia estruturas moleculares a partir de dados de espectrometria de massa58;
  • MYCIN (Stanford, anos 70) recomendava antibióticos para infecções sanguíneas e lidava com incerteza usando “fatores de certeza”59;
  • R1/XCON (Digital Equipment Corporation, 1980) configurava pedidos de computadores VAX em ambiente de produção real60. Estimativas frequentemente citadas falam em dezenas de milhões de dólares economizados por ano55;

E os governos voltaram, desta vez como aceleradores, numa corrida tecnológica:

  • Japão (1982): o Ministério do Comércio Internacional e Indústria (MITI) lançou o projeto Quinta Geração de Computadores (FGCS), com o objetivo de construir máquinas de inferência lógica em larga escala61;
  • EUA (1983): a DARPA respondeu com a Strategic Computing Initiative, que financiou I.A., hardware e aplicações militares62;
  • Reino Unido (1983): lançou o Programa Alvey55;

O resultado se repetiu. Sistemas especialistas eram caros de manter, frágeis fora do domínio e incapazes de aprender. O mercado de hardware especializado (máquinas LISP) perdeu para estações de trabalho genéricas, e os projetos estatais não atingiram suas metas55 62. O termo “A.I. winter” teria sido cunhado em um debate na conferência anual da AAAI em 1984, em que pesquisadores alertaram para uma bolha prestes a estourar55.

O retorno silencioso: redes neurais e estatística (1980~2011)

Enquanto os sistemas especialistas caíam, a abordagem conexionista se reconstruía com menos holofote.

O algoritmo que faltava: backpropagation. O problema apontado por Minsky e Papert era treinar redes com camadas ocultas. A solução matemática, a diferenciação automática em modo reverso, foi descrita por Seppo Linnainmaa (1970~1976)63. Paul Werbos propôs aplicá-la a redes neurais em sua tese de 197464. O método ficou famoso com o artigo de Rumelhart, Hinton e Williams na Nature (1986), que mostrou redes aprendendo representações internas úteis65. A atribuição de crédito nessa história é disputada; Jürgen Schmidhuber mantém um levantamento detalhado das origens66.

Outros marcos:

  • Neocognitron (Fukushima, 1980): arquitetura hierárquica inspirada no córtex visual, precursora das redes convolucionais67;
  • Redes de Hopfield (1982): memória associativa baseada em energia, que conectou redes neurais à física estatística68;
  • Redes convolucionais (LeCun et al., 1989): backpropagation aplicado ao reconhecimento de dígitos manuscritos em códigos postais69;
  • LSTM (Hochreiter & Schmidhuber, 1997): resolveu o problema do gradiente que desaparece em redes recorrentes e dominou o processamento de sequências por duas décadas70;

Paralelamente, a I.A. ficou estatística. Judea Pearl formalizou o raciocínio probabilístico com redes bayesianas71. Cortes e Vapnik introduziram as Support Vector Machines (1995), que dominaram a classificação por anos com garantias teóricas sólidas72.

E a previsão de Simon sobre xadrez finalmente se cumpriu, com 29 anos de atraso. Em 1997, o Deep Blue da IBM venceu o campeão mundial Garry Kasparov num match73. Detalhe importante: o Deep Blue usava busca massiva com hardware dedicado e funções de avaliação ajustadas, não aprendizado profundo73. A vitória veio de força bruta computacional, um tema que volta no fim deste texto.

2006~2016: a explosão do deep learning

Três fatores convergiram:

  1. Algoritmos: Hinton, Osindero e Teh (2006) mostraram como pré-treinar redes profundas camada por camada, reacendendo o interesse no “deep” learning74;
  2. Hardware: Raina, Madhavan e Ng (2009) demonstraram que GPUs aceleravam o treinamento de redes em ordens de grandeza75;
  3. Dados: o ImageNet (Deng et al., 2009) forneceu milhões de imagens rotuladas em milhares de categorias76;

O ponto de virada foi em 2012. A AlexNet (Krizhevsky, Sutskever e Hinton), treinada em duas GPUs, venceu a competição ImageNet com erro top-5 de 15,3%, contra 26,2% do segundo colocado77. Em poucos anos, visão computacional, reconhecimento de fala e tradução migraram para redes profundas78.

Na sequência:

  • 2013: word2vec popularizou representações vetoriais densas de palavras (embeddings)79;
  • 2014: o mecanismo de atenção para tradução neural (Bahdanau, Cho e Bengio) permitiu que o modelo “olhasse” para partes relevantes da entrada80;
  • 2016: o AlphaGo, da DeepMind, combinou redes profundas, aprendizado por reforço e busca em árvore e venceu Lee Sedol no Go81, um jogo considerado intratável por força bruta pura;
  • 2019: Hinton, LeCun e Bengio receberam o Prêmio Turing de 2018 pelo trabalho em deep learning82;

2017~2022: Transformers, escala e o ChatGPT

Em 2017, pesquisadores do Google publicaram Attention Is All You Need. O artigo apresentou o Transformer, arquitetura que descarta a recorrência e usa só atenção, o que permite paralelizar o treinamento em GPUs83. Praticamente todo LLM atual descende desse artigo.

A partir daí, a história é de escala:

  • GPT (OpenAI, 2018): pré-treinamento generativo não supervisionado seguido de ajuste fino84. No mesmo ano, o Google publicou o BERT85;
  • Leis de escala (Kaplan et al., 2020): o desempenho de modelos de linguagem melhora de forma previsível, como lei de potência, com mais parâmetros, dados e computação86. Hoffmann et al. (2022), com o “Chinchilla”, corrigiram a receita: para um mesmo orçamento de computação, a maioria dos modelos estava subtreinada em dados87;
  • GPT-3 (2020): 175 bilhões de parâmetros, com capacidade de executar tarefas a partir de poucos exemplos no próprio prompt (few-shot)88;
  • RLHF: Christiano et al. (2017) propuseram aprendizado por reforço a partir de preferências humanas89. A OpenAI aplicou a técnica no InstructGPT (2022) para alinhar o modelo a instruções90;
  • 30 de novembro de 2022: a OpenAI lança o ChatGPT91. A marca de 100 milhões de usuários em dois meses, atribuída a uma nota do UBS reportada pela Reuters em fevereiro de 2023, circulou amplamente;

Em 2024, o Nobel de Física foi para John Hopfield e Geoffrey Hinton por descobertas fundamentais que permitem o aprendizado de máquina com redes neurais artificiais92. O prêmio encerra simbolicamente o arco que começou com McCulloch e Pitts em 1943.

Essa é a afirmação do TL;DR deste post: o conceito de I.A. não nasceu com o ChatGPT. O ChatGPT é o produto de 80 anos de pesquisa acumulada, dois invernos e muito dinheiro público.

O padrão que se repete: computação, promessas e o Estado

Voltando à provocação da introdução, a história oferece dois padrões que ajudam a pensar sobre o futuro.

O progresso sempre dependeu da computação

Richard Sutton resumiu 70 anos de pesquisa no ensaio The Bitter Lesson (2019). A lição é que métodos gerais que escalam com computação (busca e aprendizado) acabam vencendo métodos que embutem conhecimento humano93. O Deep Blue, a AlexNet e as leis de escala confirmam isso73 77 86.

O outro lado da moeda é o custo. Sevilla et al. (2022) estimaram que a computação usada para treinar modelos de ponta dobrou a cada ~6 meses desde o início da era do deep learning (~2010)4. Thompson et al. (2020) argumentaram que a dependência de computação torna a trajetória atual econômica, técnica e ambientalmente insustentável se nada mudar5. Esse é o argumento mais sólido, com literatura revisada, para a tese de que o hardware é o gargalo.

O Estado sempre esteve na mesa, nos dois papéis

Resumo histórico do que vimos:

PeríodoGoverno como aceleradorGoverno como freio
1950~1960Financiamento militar (ONR, DARPA)41 37—
1966~1974—ALPAC50, Lighthill53, Emenda Mansfield54
1982~1990FGCS (Japão)61, Strategic Computing (EUA)62, Alvey (UK)55Cortes após metas não atingidas55 62

E hoje:

  • União Europeia: o AI Act (Regulamento (UE) 2024/1689) não proíbe modelos grandes. Ele impõe obrigações adicionais a modelos de propósito geral com “risco sistêmico” e presume esse risco quando o treino ultrapassa $10^{25}$ FLOPs (art. 51)94;
  • EUA (federal): a Ordem Executiva 14110 (out/2023) exigia reportar treinamentos acima de $10^{26}$ operações e foi revogada em jan/202595. Os EUA também impuseram controles de exportação de chips avançados a partir de out/2022, mirando adversários geopolíticos, não o tamanho dos modelos domésticos7;
  • EUA (estadual): o projeto SB 1047 da Califórnia, que impunha obrigações de segurança a modelos de fronteira, foi vetado pelo governador em set/202496;
  • Junho de 2026: a Anthropic suspendeu o acesso aos modelos Claude Fable 5 e Mythos 5 para cumprir controles de exportação do Departamento de Comércio dos EUA. Os controles foram retirados em 30/06 e o acesso foi restaurado em 01/078;
  • Setembro de 2026: laboratórios de ponta propuseram publicamente desacelerar ("pacing the frontier"), e o ensaio de Amodei pede apoio governamental, inclusive uma isenção antitruste, para que a coordenação seja viável32. Segundo o Washington Post, citado por Akita, o presidente Trump rejeitou os pedidos de desaceleração citando a competição com a China97 1. Segundo a Reuters, também citada por Akita, negociadores do Senado discutiam um “dever de cuidado” para riscos catastróficos98 1;

Conclusão

O padrão se repete, mas o papel do Estado mudou

Se você chegou até aqui, percebeu o padrão. Nos anos 60 e 70, os governos frearam a I.A. porque ela prometeu demais e entregou de menos. ALPAC, Lighthill e a Emenda Mansfield cortaram verba de uma tecnologia que não funcionava fora de mundos de brinquedo50 53 54. Nos anos 80, esses mesmos governos voltaram a acelerar quando a I.A. virou disputa entre nações, e Japão, EUA e Reino Unido despejaram dinheiro público em programas estratégicos61 62 55.

A diferença é que, desta vez, a I.A. entrega resultado. E tecnologia que entrega resultado não tem a verba cortada: tem a verba custodiada.

A I.A. como moeda de soberania

O plano de I.A. da Casa Branca abre afirmando que os EUA estão numa corrida pela dominância global em I.A., que quem tiver o maior ecossistema vai colher benefícios econômicos e militares, e compara a disputa à corrida espacial6. Não é retórica solta: os EUA controlam a exportação de chips avançados desde 20227. Em junho de 2026, uma empresa americana precisou suspender o acesso a modelos de linguagem para cumprir controles de exportação8. E quando os próprios laboratórios pediram para desacelerar, a Casa Branca teria recusado citando a China97.

Nós já vimos esse filme. Em 1946, os EUA aprovaram o Atomic Energy Act, que colocou o conhecimento nuclear sob controle estatal99. Nos anos 90, criptografia forte chegou a ser tratada como munição para fins de exportação100. Em nenhum dos dois casos o Estado proibiu a tecnologia: ele decidiu quem podia usá-la e em que escala.

É o cenário que eu vejo: governo nenhum vai abrir mão de ter o modelo mais poderoso. O que ele não vai deixar é você ter.

A I.A. como ameaça à identidade digital

A outra ponta aperta pelo lado do usuário:

  • União Europeia: desde 2 de agosto de 2026, conteúdo gerado por I.A. precisa carregar marcação legível por máquina e deepfakes precisam ser rotulados (AI Act, art. 50)9 94. Em paralelo, o bloco implanta a carteira europeia de identidade digital (eIDAS 2.0)101;
  • Brasil: o ECA Digital, em vigor desde 17 de março de 2026, proíbe a autodeclaração de idade e exige verificação etária confiável em plataformas com conteúdo impróprio para menores, inclusive lojas de aplicativos11. Para as eleições de 2026, o TSE proibiu deepfakes em propaganda eleitoral e vetou a publicação de novos conteúdos sintéticos com imagem ou voz de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação, mesmo quando rotulados102 10. E o Marco Legal da I.A. (PL 2338/2023) segue na Câmara, com um projeto apensado que obriga marca d’água em imagens, vídeos e áudios gerados por I.A.103 104;
  • Bloqueios diretos: a Itália bloqueou o ChatGPT em 2023105, a ANPD mandou a Meta suspender o treinamento de I.A. com dados de brasileiros em 2024106, e Indonésia e Malásia bloquearam o Grok em janeiro de 2026 após uma onda de deepfakes sexuais107;

Nenhuma dessas normas proíbe, hoje, gerar conteúdo audiovisual com I.A. O que existe é rotulagem, restrição por contexto e bloqueio pontual. A minha aposta está na direção do movimento: de “rotular” para “licenciar”.

No Brasil, isso nem seria novidade. Transmitir áudio e vídeo em larga escala, via rádio e TV, sempre dependeu de concessão do Poder Executivo108. Quando qualquer pessoa consegue produzir, com um prompt, um vídeo realista de um político dizendo o que nunca disse, não é difícil imaginar o legislador puxando o audiovisual generativo para a mesma lógica: primeiro nas eleições, depois para todo o resto. O meme do político gerado no GPT ou no Gemini é o primeiro candidato a virar “conteúdo sem licença”.

“Mas os modelos já estão por aí”

É o contra-argumento mais forte, e precisa ser enfrentado. Modelos com pesos abertos, como o DeepSeek-R1, podem ser baixados por qualquer um109, e o próprio plano americano diz incentivar modelos abertos6. E, na guerra da criptografia dos anos 90, o Estado acabou recuando100.

A minha resposta volta ao ponto de partida deste texto: o arquivo é livre, o silício não é. Baixar os pesos é fácil; treinar ou rodar um modelo de fronteira exige datacenters com chips cuja exportação já é controlada7 5. E o usuário médio não roda modelo local: ele usa um aplicativo, que passa por uma loja de aplicativos, que já é obrigada a verificar a idade de quem usa11. O controle não precisa estar no modelo. Basta estar no hardware e na distribuição.

Então…

A história da I.A. é a história de uma ideia que os governos financiaram quando parecia promissora, abandonaram quando decepcionou e agora disputam quando finalmente funciona.

A I.A. vai sim triplicar de tamanho, mas muito provavelmente não vai triplicar para nós.

Posso estar errado, e sinceramente adoraria estar. Se discorda, ou tem alguma observação, deixa o seu comentário abaixo.

Bibliografia

Mostrar referências
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  11. BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025 (ECA Digital). Resumo: MACHADO MEYER. Estatuto Digital da Criança e do Adolescente entra em vigor em 17 de março de 2026. https://www.machadomeyer.com.br/pt/inteligencia-juridica/publicacoes-ij/direito-digital/estatuto-digital-da-crianca-e-do-adolescente-lei-n-15-211-2025-entra-em-vigor-em-17-de-marco-de-2026 ↩︎ ↩︎ ↩︎

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